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Preços disparam no maior mercado da Praia devido à seca e mau ano agrícola

12 de Outubro de 2017, 10:06

Os efeitos da seca e do mau ano agrícola em Cabo Verde já se fazem sentir no maior mercado da Praia, onde faltam alguns produtos habituais desta época e os disponíveis estão mais caros.


Evinha Fernandes e Felícia Barbosa moram na mesma casa no bairro de Fonton e tiraram uma manhã para irem juntas às compras no maior mercado de frutas, verduras, legumes, carnes e peixe da capital cabo-verdiana.

Depois de várias voltas e muitos negócios, encheram dois sacos com um pouco de tudo, desde tomate, banana, mandioca, salsa, alface, pepino, repolho, carnes.

"Os preços nesta altura são de fazer correr", atirou Evinha em tom de brincadeira, mas dizendo categoricamente que "não há comparação" com anos anteriores.

"Tudo está muito mais caro", prosseguiu a jovem natural da ilha do Fogo, mas que vive há 12 anos na cidade da Praia.

A correria e os negócios não param, e no meio da azáfama nos corredores estreitos do mercado, são abordadas pela agência Lusa sobre os preços dos produtos nesta altura, e dizem quase em uníssono que aumentaram porque não choveu praticamente nada no país este ano.

"Mas Deus é pai", disse Evinha, notando, por outro lado, que não há milho nem feijões verdes no mercado, dois produtos que habitualmente abundam no país nesta altura do ano.

A compradora não larga os dois sacos azuis cheios de produtos e apontou que o tomate é o que mais inflacionou, passando de 40 a 50 escudos (45 cêntimos do euro) de há dois ou três meses, valor que quadruplicou.

Também notou que a mandioca, que antes custava 70 a 80 escudos, duplicou o preço, ou o repolho, que já custou 50 escudos, mas que agora tem um preço triplicado.

Em sentido contrário está a banana verde, que continua a ser o produto mais barato no mercado da Praia, custando entre 50 a 60 escudos cada quilo.

"Antes trazíamos 500 escudos (4,53 euros) e dava para fazer um almoço, mas agora não chega para muita coisa", lamentou Felícia à Lusa, que pagou mais de dois mil escudos (cerca de 20 euros), dizendo que não têm outro remédio senão comprar alguns produtos frescos para diversificar a ementa lá em casa.

Sentada num balde mesmo em frente a uma das portas do mercado, a vendedora Maria de Lurdes chama todos os transeuntes para comprarem na sua banca.

"Negoceia comigo. Negoceia comigo. Temos abóbora, mandioca, tomate, pepino", apontou, ao mesmo tempo que não larga a faca afiada com que pica folhas de repolho.

Quanto aos preços, Maria de Lurdes, que vive no bairro de Calabaceira, não hesita em confirmar que aumentaram ligeiramente, porque "não choveu este ano".

"Se chover em agosto, o mês de setembro é o primeiro de fartura. Mas como este ano não choveu, tudo está mais caro", disse a vendedeira, 60 anos, metade a negociar no mercado.

Em três décadas de comerciante, Maria de Lurdes não tem dúvidas em afirmar que este é o "pior" ano que já passou no mercado, onde a chuva é a palavra que não sai da boca de ninguém, mas que tarda em cair em abundância para regar os campos.

Noutro ponto do mercado, a vendedeira Isabel Veiga não esconde o desalento pelo mau ano agrícola, falta de alguns produtos no mercado e consequentemente aumento dos preços.

Por isso, disse à Lusa que o movimento este ano está "mais fraco" do que anos anteriores, mas ainda tem "fé em Deus" que vai chover, pelo menos para irrigar as nascentes e para o pasto.

"Estamos cheios de problemas. Não temos onde ir, sem chuva não há nada a fazer", esbracejou a vendedeira natural do bairro de Castelão, na Praia, e há 18 anos no mercado.

Para contornar a escassez de alguns produtos nos concelhos do interior de Santiago, as vendedeiras dizem que muitos são importados de outras ilhas, como Fogo (abóbora) e Maio (batata-doce) ou cenoura que chega do estrangeiro.

Se as verduras e legumes estão ligeiramente mais caros, as carnes poderão vir a ficar mais baratas porque não choveu o suficiente para ter pasto em abundância para o gado.

Quem fez a previsão foi o açougueiro Nelo, dizendo que por causa disso os criadores de gado vão ter de vender os animais a um preço mais baixo.

Mesmo assim, Nelo ainda credita que venha a chover para, pelo menos, haver mais pasto para os animais e evitar que muitos morrem de fome.

Na semana passada, numa visita ao interior de Santiago, o ministro da Agricultura e Ambiente, Gilberto Silva, disse que o país regista "um dos piores anos" de seca e anunciou um plano de emergência de sete milhões de euros para ajudar a população rural.

O ministro disse que as grandes medidas irão abranger o salvamento do gado, a melhoria na gestão da água e criação de empregos para as cerca de 17.200 famílias afetadas diretamente pelo mau ano agrícola, cerca de 62% das famílias rurais do país.

O representante do Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em Cabo Verde, Rémi Nono, disse também que a situação é "preocupante" e garantiu que a organização vai ajudar o país, tendo ainda de discutir os valores com o delegado regional em Acra.

Lusa


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