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Portugal e Cabo Verde: Uma relação mutuamente vantajosa

04 de Julho de 2010, 10:14

É inegável que a relação bilateral entre Portugal e Cabo Verde conhece, actualmente, o seu melhor momento. Prova disso são as constantes visitas mútuas de chefes de Estado e de governo entre os respectivos países. A viagem do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, a Cabo Verde evidencia precisamente a solidez, bem como a vontade política de continuar a incutir aos laços bilaterais uma dinâmica de crescente aprofundamento.

Essa mesma vontade política é reflexo, por sua vez, do actual excelente estado das relações económicas. Se por um lado Portugal continua a ser o principal parceiro comercial de Cabo Verde, assim como o seu terceiro maior investidor, Cabo Verde, por outro, tem consistentemente adquirido ao longo dos últimos anos um peso significativo – se tivermos em conta a sua dimensão – na balança comercial portuguesa. Com efeito, em 2009, Cabo Verde tornou-se no 15º destino preferencial das exportações nacionais, ultrapassando supostos pesos pesados como a China ou a Rússia, ou até mesmo outros parceiros lusófonos de maior envergadura, como é o caso de Moçambique, sendo apenas ultrapassado por Angola e Brasil.

Acresce que a par das trocas comerciais, Portugal e Cabo Verde reconhecem também que a actual parceria pode e deve ser capitalizada e maximizada no plano político, obtendo desse modo resultados concretos tanto a nível regional como internacional. Um bom exemplo disso é precisamente a desejada relação privilegiada que, durante algum tempo, Cabo Verde pretendeu obter com a União Europeia, de preferência sob a forma de plena adesão. Embora esta ambição não se tenha concretizado, foi durante a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia, em Novembro de 2007, que acabou por se institucionalizar uma Parceria Especial, a primeira e única até agora entre a UE e um Estado da África subsaariana. Logo nessa altura Portugal compreendeu os benefícios que poderiam advir de um forte apoio a maiores laços entre a UE e Cabo Verde, apresentando-se por isso como o interlocutor preferencial, esperando assim obter a curto e médio prazo possíveis dividendos políticos no seio da CEDEAO e da restante África Ocidental.

Este estado de graça bilateral teve o seu ponto alto no mês passado, com a realização da I Cimeira entre Portugal e Cabo Verde. As cimeiras bilaterais entre os dois países passarão a ocorrer de forma regular, a cada dois anos, sinal claro da importância que Portugal e Cabo Verde conferem à manutenção de contactos regulares ao mais alto nível.
Cabo Verde sabe que Portugal é o seu maior aliado na União Europeia. Por sua vez, Portugal sabe que Cabo Verde é o seu grande parceiro na CEDEAO em particular e na África Ocidental em geral. Se se juntar ao notório interesse político e económico que os dois países têm no aprofundamento da sua relação, os laços históricos, culturais e linguísticos, então pode dizer-se com segurança que a relação bilateral parece ter todos os ingredientes para que as duas partes invistam nela. É precisamente este investimento diplomático comum que explica a visita de Cavaco Silva a Cabo Verde.

Pedro Seabra
Investigador do Instituto Português de Relações Internacionais e Segurança (IPRIS)
http://www.ipris.org

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