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Entrevista exclusiva/Jorge Humberto:“Mund é grande e redond mesmo na nha tambor piknin”

07 de Maio de 2010, 12:07

Jorge Humberto está em Cabo Verde a divulgar o recente trabalho “Ar de nha terra”. Gravado no lugar que o inspira, afirma que “ao ser gravado em São Vicente “Ar de nha terra” tem tudo aquilo que precisava". Depois do acolhimento que teve em São Vicente, vai apresentar o trabalho na cidade da Praia, sábado, dia 8, no auditório nacional.

Algumas vezes mal compreendido nas suas composições, censurado no periodo de pós-independência, o compositor afirma que "o sempre
existiu em mim foi sempre a vontade de ver un mund más grand".


Texto: Hilda Teófilo
Fotos: www.mindelo.info

SAPO: O que é “Ar de nha terra”?
Jorge Humberto: “Ar de nha terra” é um resumo de valores que gosto em Cabo Verde desde a música, o crioulo falado e a nossa cultura em geral. É o ar daquilo que eu sou e gosto de ser. É o ar dos nossos hábitos e das coisas que cultivo, não num sentido conservador, mas num sentido de melhor utilidade para mim. “Ar de nha terra” é aquilo que me faz feliz em termos musicais.

S: Gravou o CD “Ar de nha terra” em São Vicente. Se o fizesse em França teria o mesmo sabor ou é necessário sentir o calor da terra?
JH:
Se fosse gravado em França não teria o mesmo valor. Foi bom ter gravado em São Vicente. Permitiu-me colocar outro amor e outra proximidade. Apesar de ser uma pessoa universalista a minha inspiração musical começa em Cabo Verde e, particularmente, em São Vicente. Gravar em casa trouxe-me uma maior proximidade, mais informação do que aquilo que precisava directamente. Foi uma experiência partilhada entre o estúdio, as pessoas, o mar e o sol. Aqui o espaço é mais pequeno e permite outra vivência durante a gravação.
Ao ser gravado em São Vicente “Ar de nha terra” tem tudo aquilo que precisava.

S: Sofreu um acidente de trabalho anos atrás que lhe queimou a mão. Isso mudou a sua forma de tocar? Como foi a adaptação?
JH: Esse acidente deformou-me a mão de uma forma que eu não consigo explicar. Fui submetido a algumas microcirurgias na mão para separar os dedos e tive que adaptar a forma de lidar com o meu violão e adaptar a condição dos meus dedos.


Confessa que gosta de cantar desde criança. Teve formação musical na escola Salesiana onde tinha aulas e canto com o Padre Cristiano. Gostava de ser escolhido para cantar na igreja o que na altura não era fácil, dado ao nível de exigência que era pedido. Antes de ir para escola cantava músicas do Bana e de outros cantores que ouvia na rádio. O tocar veio mais tarde porque “não era fácil ter um violão na altura”, explica. “O meu primeiro violão foi feito por Bau, era um violão acústico com um bom som. Foi na altura em que tinha tido o acidente e queria o violão só para ter porque estava um pouco perdido porque tinha as mãos queimadas o que não me permitia tocar”, conta.

S: O Jorge Humberto é um compositor intimista, metafórico e criativo. Como é que desenvolve esse processo criativo?
JH:
O processo começa quando procuro transformar a minha ilha e Cabo Verde maiores daquilo que são. Uma ilha é uma coisa pequena e sempre tive noção dessa pequenez e, a minha primeira intenção, quando componho é transformar as coisas maiores e compensar, na minha forma de pensar, o pequeno espaço geográfico em que vivemos. Evado muito na minha composição para poder sair do ilhéu que conheço desde que nasci. Somos obrigados a criar e a expandir a memória e ganhar a independência de ser.

S: E quando sai para fora de Cabo Verde, conserva esta forma de olhar o mundo?
JH: Quando saio para fora de Cabo Verde, nomeadamente, França, Estados Unidos ou Portugal mantenho a minha forma de ser e de ver. Mantenho o mundo que já estava formado na minha mente antes de sair de Cabo Verde porque nasci numa ilha.

Envolvido na vivência cabo-verdiana e pela paixão pela música começou a compôr com dezassete anos. A profundidade da sua poesia teve uma fase menos compreendida tendo sido censurada no período pós independência como, por exemplo, a composição “Verdad renegod” que diz  “Verdad contod ness mundo ca te ovid”, “Igualdade e amor só na papel”…

S: Além do poeta que revela nas suas composições, já foi considerado um rebelde, sendo a sua música proibida nos tempos do PAIGC. É realmente um rebelde ou foi mal interpretado na altura?

JH: A independência chegou de forma inesperada e trazia em si uma nova linguagem e uma nova forma de ver a vida ao qual não fiquei indiferente. Eu senti a necessidade de avançar um pouco mais porque não existe nada mais bonito que ser independente. Infelizmente, houve pessoas que aproveitaram o meu lado mais novo e ingénuo e conseguiram dar a minha música uma conotação política, que convinha a alguns. Mas o que sempre existiu em mim foi sempre a vontade de ver “un mund más grande”.

Não fui rebelde e não ganhei nada com essa conotação. Naquele tempo, preferiram olhar para a minha música não como a composição de um jovem dando-lhe outro sentido. As pessoas não estavam habituadas a verem a nossa vida quotidiana exposta. Mas a própria independência exigia que o individuo fosse mais ele e menos o outro e não havia razões de encher o ego de dúvidas e preconceitos. Por tudo isso, fizeram uma análise precipitada, dramática e até sensacionalista das minhas composições.

Para mim foi um grande prejuízo porque as pessoas ganharam o hábito de me verem nesse relato sensacionalista e menos como um compositor e isso não foi fácil. Gostaria de ser visto como um compositor da época, mas ainda bem que o mundo evoluiu e, hoje, Cabo Verde é um país que reflecte isso.


Menin de soncent, nasceu há 50 anos, cresceu na rua Luz e bebeu toda a vivência mindelense concentrada na zona da Praça Estrela, onde diz, ter-se formado a sua personalidade musical. Lembra-se dos futebolistas que passavam em direcção ao estádio, os pescadores para a pesca, os marinheiros para os barcos e a música sempre presente nas tocatinas e serenatas alimentadas no bom grogue que acompanhava os tocadores . “Consegui registar na minha memória a forma como as pessoas tocavam naquele tempo e, é essa forma de tocar violão que tento vasculhar na minha memória para tentar encontrar as intenções que existiam atrás de cada instrumento e traze-los para a actualidade para continuar a trabalha-las e a conserva-las na medida da minha limitação”, confessa. 

S: No novo CD, a primeira música chama-se “Antiguidade”. A qual antiguidade se refere?
JH: A data altura digo que “antiguidade na pensament estudá cretcheu”. Para abordar esse assunto quero dizer que a antiguidade já tinha previsto um viver diferente. Não é por acaso que canto que “nha claridade ca bem sombrá”, que é o inverso. Trato a claridade como se fosse uma pessoa.
Nesta música tento encontrar uma época muito, muito atrás do nosso tempo mas com pessoas dotadas de uma maneira particular e boa de estar na vida, diferente do nosso tempo em que muitas vezes vivemos em sobressaltos, apesar do desenvolvimento.
Quando me refiro a antiguidade estou a fazer uma viagem ao passado para reencontrar bons momentos e boas formas de estar na vida. É mais barato viver assim, nesta simplicidade, do que de outra maneira.

S: Qual é a “Força d’tambor”?
JH: “Mund é redond mesmo na nha tambor pequin”. O mundo é grande mas existe dentro do meu tambor pequenino. O tambor é o instrumento que, quando ouço com tempo e paciência, carrega-me à descoberta do mundo, porque o mundo em que vivemos já é velho, transmitido através de gerações e civilizações.

O tambor, como forma de comunicação, tem si a força das coisas que não conhecemos e que na maior parte das vezes as pessoas que tocam não sabem transmitir através de palavras, mas tocada num tambor faz-nos pensar, sonhar e viajar pelo mundo fora sem ter saído de onde estamos. Para mim é também uma forma de resistir culturalmente, porque preciso da minha cultura para viver.

S: Já actuou em São Vicente. Como foi a recepção?
JH: Gostei imenso, houve muito calor. Em São Vicente existem muitas pessoas que gostam da minha música e o público reagiu muito bem. Senti-me reconhecido pelas pessoas a quem agradeço. Foi demonstrado uma amizade num episódio que há muito tempo não vivia.

S: E na Praia, qual é a expectativa?
JH: Penso que vai ser igual porque a minha intenção é a mesma. Para mim o público cabo-verdiano é único. Não vejo Cabo-Verde dividido, para mim é um todo. Estar na Praia, São Nicolau e Santo Antão para mim é igual. Por isso, espero a mesma receptividade, atenção e calor do público.

Além de trabalhar na divulgação do “Ar de nha terra”, está a trabalhar num projecto com uma amiga, Francine Tarassoff que está a preparar um CD com canções infantis para ajudar as crianças menos favorecidas de Cabo Verde. Jorge Humberto canta duas canções em francês e faz os acordes do CD que se chamará “Sur na rayons de l’une”. Tem a vontade e o desejo de trabalhar com outros artistas, em Cabo Verde, na produção discográfica mas não tem conseguido financiamento para montar uma empresa neste sentido. Muitas vezes visto como o Joe Cocker cabo-verdiano, o cantor a residir em França dedica-se de corpo e alma a sua forma de sentir a música cabo-verdiana.

HT @

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