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Horácio “Lalacho” Santos: Actor e contador de estórias

11 de Março de 2010, 11:44

Contar estórias no século XXI, para uma turma de crianças ou um grupo de jovens universitários pode ser um pedaço de paraíso para Horácio Santos, mais conhecido por Lalacho, o nominho da terra.
CINEMA
Já foi o régulo Vátua Gungunhana, em “Aqui D' El Rei” (1992), de António-Pedro Vasconcelos, fotógrafo da História, num tête-a-tête com Salgueiro Maia, em “Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros; comerciante abastado, em “O testamento do Senhor Napomuceno da Silva Araújo, do realizador Francisco Manso e “Ilhéu de Contenda”, do cabo-verdiano Leão Lopes.
A propósito, conta, “Leão Lopes pediu-me para falar o crioulo da ilha do Fogo e eu respondi-lhe falo todos os que quiseres, e todos os sotaques do português”.
ESTÓRIAS
As estórias, sem H, daquelas que se contam de olhos nos olhos – “por isso é que não gosto que me filmem a contá-las” – chegaram-lhe nos últimos quinze anos, de forma acidental. “Não me lembro como tudo começou, mas de um momento para o outro já tínhamos formado uma associação de contadores de estórias - um cabo-verdiano, uma alemã, um português e um santomense (o também actor Ângelo Torres)”.
Estórias que lhe saiem em crioulo de Cabo Verde e em português, num casamento que obriga a redobrada atenção, mas ganham uma vida própria na sua boca. É por isso que já é considerado um “griot” dos tempos modernos, um contador de estórias capaz de segurar o tempo nas mãos, suspender por minutos todas as bandas largas possíveis.
É diante do espelho do seu escritório, em Queluz, que Horácio Santos prepara as estórias com todo o cuidado. Mas, de onde lhe chegam estas estórias? “É engraçado”, responde, “quando vou ao Brasil escuto uma estórias novas, mas que afinal não são nada novas; o mesmo acontece em Portugal, foram levadas daqui da Europa e ganharam vida em terras novas, mas a matriz é a mesma.”
O mundo é feito de estórias, na sua douta opinião. A sua vida é também uma estória com mais de sete décadas: “Quando me meti no barco para Moçambique as minhas filhas eram todas pequeninas e íamos para uma terra desconhecida; disse-lhes: aqui quem não falar português fica sem comer!”

    Vídeo da estória "Utopia":                                                                               TEATRO

No teatro, deu os primeiros passos na cidade da Praia, aos doze anos: “ A minha mãe disse ao encenador, ‘só com uma condição: terão de vir buscá-lo a casa e trazê-lo no fim dos ensaios; e outra coisa: não pode perder nenhum ano!’” Em Moçambique, então funcionário público, o actor nas horas vagas também foi jornalista, correspondente de vários jornais da então província ultramarina.

Depois da independência de Moçambique e após uma breve passagem por Cabo Verde, estabeleceu-se com a família em Lisboa. A reforma deixava-lhe bastante tempo livre. E o cinema acabou por chegar, de forma natural. “António-Pedro Vasconcelos olhou para mim e disse: é ele, é ele mesmo que eu quero; eu perguntei, mas para quê? Para ser o Gungunhana, respondeu-me.
Mas Lalacho não se deixa deslumbrar. “Se me perguntarem, gosto mais do teatro do que de cinema, mas gosto ainda mais de contar estórias do que de teatro”, confessa.
Horácio está de partida para Cabo Verde para mais um dia importante da sua própria estória: “No dia 26 de Março celebro 55 anos de casado e sabe que mais? A minha mulher andou por aí a procurar uma placa dessas de aniversário de casamento, e quando pediu uma dos 55 anos olharam para ela e sorriram, meio atrapalhados - essas já são muito raras, já ninguém as fabrica – disseram-lhe.”
 

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