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Diário do SAPO no Iraque

09 de Fevereiro de 2010, 15:57

A um mês das eleições legislativas no Iraque, o SAPO partiu para Bagdade. A partir da capital iraquiana, o enviado especial Marco Leitão Silva dá conta na cidade em vésperas de eleições - as primeiras, desde que as tropas norte-americanas deram início à retirada. Leia aqui o diário do repórter.

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Terça-feira, dia 9 de Fevereiro de 2010/ 16:20 (13:20 em Lisboa)

À mesa em Bagdade

Em Bagdade, qualquer hora é boa para comer. Durante todo o dia, qualquer restaurante espalhado pelas ruas da cidade tem clientes à procura de uma refeição. E, por isso, também hoje, entre reportagens e entrevistas, parei num restaurante junto à estrada para uma refeição rápida, antes de seguir para o próximo encontro.

Um vendedor de rua de peixe grelhado (Foto: Marco Leitão Silva/SAPO Notícias)E a rapidez é um mal necessário por aqui, para qualquer jornalista: diz-me Safa, o meu intérprete, que devíamos despachar-nos a comer, pois não convém ficar muito tempo no mesmo lugar. Quanto ao carro: esse ficou estacionado mesmo em frente às janelas do restaurante, para que nunca o perdêssemos de vista.

Entrámos. Uma oração cantada enchia toda a sala, vinda da televisão por satélite, instalada logo à saída da cozinha (uma ‘refeição abençoada’, pensei eu). As mesas de madeira gasta e suja estavam quase todas cheias e, por isso, sentámo-nos ao fundo da sala.

Safa fez o pedido. O empregado de mesa, um iraquiano de barba e bigode negros, trouxe-nos as entradas: um prato com tomate e pepino picados em pequenos pedaços, acompanhados por uma taça de sopa esbranquiçada (cogumelos e frango, esclarece-me Yasser, o nosso guia).

Pouco depois, chegou a comida: uma travessa com meio frango grelhado, arroz salteado com legumes e frutos secos, e para terminar, uma (sempre habitual) travessa com pimentos e malaguetas – devoradas sem piedade pelos meus companheiros iraquianos, sem que o ardor da iguaria lhes cause uma lágrima sequer.

Talheres? Nem vê-los. Esses, raramente fazem parte de uma tradicional mesa iraquiana. Para comer o arroz, a colher da sopa serve. A carne e os legumes são comidos à mão, mas sempre com a ajuda do tradicional pão iraquiano: uma espécie de base de pizza, mais mole e com um travo ligeiramente salgado. Dada a sua textura e flacidez, serve de guardanapo para pegar na carne, nos legumes.

De mãos e lábios sujos, a refeição terminou com uma lavagem das mãos e da boca, com a ajuda de sabonete em barra.

Os ossos do frango sobre a mesa e os restos de comida espalhados pelos pratos são arremessados de uma só vez, pelo empregado de mesa, para dentro de um pequeno caixote do lixo. Os frascos dos molhos são arrumados. A mesa está pronta para nova utilização.

Antes de sair, com as mãos ainda a cheirar a sabão, perguntei a mim mesmo quantas doenças poderia contrair, dada a falta de higiene alimentar. Preferi não pensar nisso – afoguei as mágoas num chá preto do Sri Lanka a ferver, mesmo antes de seguir viagem.

@Marco Leitão Silva

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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010/ 17:00 (14:00 em Lisboa)

O futuro nas mãos das iraquianas

Foi em 2005 que o Conselho de Representantes (isto é, o Parlamento iraquiano) foi a votos pela última vez. Na altura, 25% dos 275 deputados eleitos foram mulheres – uma regra imposta pela Lei Eleitoral, que também obrigava todas as listas candidatas a incluírem pelo menos uma mulher em cada três candidatos.

Em Portugal, só um ano depois é que o Presidente da República promulgou a Lei da Paridade, sendo esta aplicada pela primeira vez, em eleições legislativas, em Setembro do ano passado.

A deputada sunita Shatha Al-Obosi, membro da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento iraquiano (Foto: Marco Leitão Silva/SAPO Notícias)Quando hoje conversava com uma das actuais deputadas do Parlamento iraquiano (e que se vai candidatar novamente às eleições de 7 de Março), perguntei-lhe qual seria o papel das mulheres na construção da democracia no país.

Respondeu-me que seria ‘certamente importante’. Afinal de contas, dizia ela: ‘nós, mulheres, somos muito mais fiáveis do que os homens que estão no Parlamento’. E apontava, como provas desse empenho feminino, a superior assiduidade nas sessões plenárias e a maior participação nas várias comissões parlamentares.

Minutos antes, outra deputada, pertencente à Comissão dos Direitos Humanos do Parlamento iraquiano, tentou mostrar-me que o Iraque está determinado a virar uma página negra na História dos Direitos Humanos do seu povo. Como? Socorrendo os prisioneiros detidos injustamente durante a invasão norte-americana, salvaguardando os direitos dos refugiados.

Uma curda, outra sunita. Duas mulheres dispostas a lutarem pelo seu povo. Ambas se recandidatam nestas eleições, desejosas de tomar parte na reconstrução de um país devastado por guerras sucessivas. Dizem que não são um caso isolado e que a mulher iraquiana sabe lutar.

Coloca-se a questão: será que o véu faz alguma diferença?

@Marco Leitão Silva

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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010/11:00 (08:00 em Lisboa)

Um oásis em Bagdade

Bagdade está sempre à espera do próximo atentado, quer seja sob a forma de carro armadilhado, quer de bombista suicida. E, por isso, há uma tensão constante no ar. Mas não, curiosamente, num pequeno ‘oásis’ no centro da cidade, junto ao Rio Tigre: a chamada ‘Zona Verde’.

Vista aérea sobre Bagdade (Foto: Marco Leitão Silva/SAPO Notícias)Esta área é conhecida pelas suas condições de segurança: afinal, é a zona de Bagdade onde está concentrada a maioria das embaixadas ocidentais (entre as quais, a norte-americana), bem como boa parte dos edifícios governamentais.

Marquei ao meio-dia uma entrevista com uma deputada do Parlamento iraquiano. O ponto de encontro era o Hotel Al Rasheed (o mais luxuoso de Bagdade), localizado já dentro da ‘Zona Verde’.

Antecipando dificuldades no acesso ao Hotel, cheguei mais cedo. Dei de caras com a entrada nº 3 para a ‘Zona Verde’: paredes de betão armado com três metros de altura, arame farpado no topo, sinais de aviso, armas, polícia, militares... Uma conjugação de esforços para garantir que o perigo fica do lado de fora destas perdes.

Recusando entrar comigo, o meu intérprete, Safa, preferiu ficar à porta à espera. De mochila às costas e tripé ao ombro, entrei por uma brecha entre as muralhas de betão: nova cerca de arame farpado e um aviso contundente: ‘retire a bateria do seu telemóvel ou este será confiscado’.

Ao chegar ao primeiro checkpoint, os procedimentos habituais: pedido de identificação, rastreio em todo o corpo, revista da mochila. Fica o aviso: tenho de retirar também as baterias da máquina fotográfica e da câmara de filmar. Todos os cuidados parecem poucos.

Depois de passar (já ‘limpo’) pelo primeiro checkpoint, dou cinco passos e dou de caras com um segundo checkpoint. Nova revista, as mesmas perguntas. Mais cinco passos, novo checkpoint. E o processo repete-se uma, duas, três, quatro vezes. Em cada posto, novos rostos: ora de soldados peruanos, ora iraquianos, ora norte-americanos - uma roda-viva de revistas, para garantir que nada tira o sono aos habitantes da ‘Zona Verde’.

Ultrapassada a barreira de segurança, dou de caras com o Al-Rasheed. À volta do hotel, reconheço as feições de alguns transeuntes: pálidos, de tez clara, bem vestidos. Ocidentais, certamente. Armas? Ficaram à porta.

Tudo aqui me parece diferente: não há mulheres, decepados ou crianças a pedirem uma esmola para o dia. Tudo está asseado e tranquilo. Sendo Bagdade, parece muito pouco Bagdade.

Afinal de contas, fora destas muralhas a cidade ferve com um burburinho constante, que tanto poderia vir de uma mesquita que se ouve lá longe na hora das rezas, como dos helicópteros negros que sobrevoam a cidade a todo o momento.

@Marco Leitão Silva

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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010/ 23:58 (20:58 em Lisboa)

Eleições? Que eleições?

Um final de tarde em Bagdade (Foto: Marco Leitão Silva/SAPO Notícias)Quando falta precisamente um mês para as eleições legislativas no Iraque, Bagdade parece alheia ao acto eleitoral.

Na semana passada, a Comissão Eleitoral decidiu adiar por cinco dias o arranque da campanha eleitoral, inicialmente agendado para este domingo. Em causa estava uma decisão dos tribunais iraquianos, que decidiram rejeitar quase 500 candidaturas sunitas às eleições, sob acusação de promoverem o antigo partido do ditador Saddam Hussein, o partido Baath.

O assunto foi levado esta tarde ao Parlamento iraquiano, enquanto se discute já se a exclusão dos candidatos sunitas não poderá abrir caminho a novas tensões entre muçulmanos xiitas (maioritários no Iraque) e sunitas – que culminaram em conflitos violentos em 2006 e 2007.

Pelas ruas de Bagdade, o assunto parece não estar ainda na agenda da opinião pública. Nas paredes, são visíveis apenas cartazes amarelados pelo sol, que datam ainda das eleições provinciais do ano passado. Em lado nenhum são visíveis materiais de campanha – apenas bandeiras e adereços religiosos negros, a propósito das últimas festividades xiitas.

E com o duelo eleitoral reduzido a duas coligações de partidos xiitas (sendo uma delas a coligação ‘Estado de Direito’, liderada pelo actual Primeiro-Ministro, Nuri Al-Maliki), há quem diga já que as eleições ‘não trazem nada de novo’, como ouço o meu guia sunita dizer.

Apenas no seu movimento quotidiano Bagdade parece estar atenta à proximidade das eleições: as cautelas com a segurança são redobradas, a polícia e os militares estão mais atentos do que nunca.

Afinal de contas, os recentes atentados terroristas (nas últimas duas semanas) deixaram clara uma mensagem: até dia 7 de Março, pode voltar a correr sangue nas ruas da cidade.

@Marco Leitão Silva

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Domingo, 7 de Fevereiro de 2010 – 12:50 (09:50 em Lisboa)

Caos sobre quatro rodas

Dizer que há trânsito em Lisboa é uma piada, quando comparado com o de Bagdade: tudo nestas estradas é caótico.

Depois do fim-de-semana, o regresso ao trabalho é marcado por intermináveis horas de ponta, passadas em estradas que, quando se desviam dos itinerários principais, aparecem cravejadas de buracos – hoje cheios até ao topo com a água da chuva que ontem caiu sobre Bagdade.

Bagdade paralisada com o trânsito em hora de ponta (Foto: SAPO Notícias)Nesta cidade, há uma mistura invulgar de carros: há as carrinhas coreanas, identificadas com a palavra ‘Besta’ (uma marca muito popular de automóveis, segundo o meu intérprete, Safa); há também os gigantes norte-americanos, sejam eles os Chevrolet, as carrinhas Ford, os Dodge ou os famosos jipes Hummer; e há os restantes automóveis, na sua maioria velhos e amolgados – um indício da condução tresloucada que por aqui se faz.

E, em boa verdade, arriscaria dizer que poucos por aqui conhecerão o Código da Estrada. Aqui, cada um circula numa rotunda, no sentido que mais lhe convém. As prioridades na circulação foram substituídas pela anarquia, que permite a qualquer carro fazer-se à estrada, obrigando os restantes carros a parar. E, se for suficientemente larga, qualquer estrada pode permitir duas, três ou quatro faixas de circulação, seja qual for a sinalização impressa no chão.

A única regra parece ser mesmo: buzine quando puder. Qualquer movimento na estrada é assinalado com uma sonora buzina, acompanhada por algumas palavras em árabe, sob a forma de praguejo. Aqui, a buzina serve para cumprimentar, para alertar os outros condutores quando estão demasiado próximos, para entrar na estrada, para ultrapassar, para fazer sinal de passagem...

Num cruzamento crítico, junto à Avenida 17 de Julho (a principal de Bagdade), há um conjunto de 4 semáforos novos em folha. Não funcionam e o trânsito entrega-se à anarquia já habitual em qualquer outro ponto da cidade. Pergunto ao Safa, ingenuamente, por que razão não funcionam. Depois de uma gargalhada genuína, olha-me nos olhos e responde: ‘Porque não têm electricidade!’.

@Marco Leitão Silva

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Sábado, 6 de Fevereiro de 2010/ 22:06 (19:06 em Lisboa)

O cheiro do medo

Bagdade fede a medo. Em cada esquina, há marcas de bala nas paredes, muros destroçados por antigas explosões de carros armadilhados ou de bombistas suicidas.

Armas. Há armas por todo o lado. Os checkpoints do Exército e da Polícia multiplicaram-se no centro da cidade, desde que os militares norte-americanos começaram a retirar dos centros urbanos em Junho do ano passado. Congestionam o trânsito, inspeccionam cada veículo, à procura de bombas. Olham de forma suspeita para cada rosto de fisionomia ‘não-iraquiana’.

Uma das paredes de betão derrubadas pela explosão junto ao Hotel Palestina.Em frente ao Hotel Palestina, há destroços. São vestígios do triplo atentado terrorista que, no final do mês passado, recordou a Bagdade que uma nova vaga de violência pode estar iminente, com a aproximação das eleições legislativas.

O impacto foi capaz de derrubar as paredes de betão que rodeiam o Hotel. Lado a lado com o Palestina, também o Hotel Sheraton Ishtar apresenta ainda marcas da destruição, quase duas semanas depois dos ataques.

Enquanto escrevo estas linhas, lá fora, na escuridão, ouvem-se tiros. Um minuto de tiros seguido de sons de ambulâncias ou polícia. Haverá mortos?

O medo espalha-se pelas ruas. A guerra pode até ter terminado, mas a ameaça terrorista latente em todo o país tem um efeito psicológico poderoso: as rotinas são cumpridas escrupulosamente e a desconfiança manifesta-se em cada gesto.

Não é por isso de admirar a hesitação com que a população de Bagdade encara a imprensa internacional: sabem bem que aparecer nos Media pode trazer-lhes uma visibilidade e uma notoriedade indesejadas.

Retraem-se. Recusam falar sobre o passado, sobre o futuro. Afinal de contas, é o mesmo o presente, que está impregnado de medo.

@Marco Leitão Silva

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Sábado, 6 de Fevereiro de 2010/ 13:00 (10:00 em Lisboa)

Sem regra

Um quarto da população do Iraque vive em condições de pobreza extrema. É fácil ver pedintes a mendigarem pelas ruas, corpos retorcidos com o frio, junto a uma lareira improvisada em qualquer beco.

O monumento da liberdade, no centro de Bagdade, veio substituir a estátua do ditador Saddam Hussein - derrubada por altura invasão norte-americana em 2003.O dinheiro escasseia e cada um faz o que for preciso para viver: quem não tem poder procura-o e quem o tem, deixa-se corromper.

Esta manhã, à saída do aeroporto internacional de Bagdade, esperava-me o meu guia. Safa é funcionário no Ministério do Interior. Exibe com orgulho o crachá do Governo e assegura que não terei problemas, enquanto ele puder mostrar o pequeno documento de plástico encarnado.

O crachá foi posto à prova: mal saímos do parque de estacionamento, cruzámos um checkpoint com quatro soldados armados. Safa apresentou-se como meu guia, mas o grupo não pareceu convencido: afinal, sendo jornalista internacional, por que razão não estava eu a abandonar o aeroporto num dos carros do Governo?

Safa brandiu uma e outra vez o pequeno crachá: de nada serviu. Embaraçado, pediu-me desculpa e explicou-me que, para fazer o caminho entre o terminal e a saída do aeroporto (uma distância de cerca de 200 metros), deveria viajar numa viatura oficial.

Voltamos para trás, até ao terminal. Junto a um dos carros do Executivo iraquiano, estava um homem jovem, que rapidamente propôs o negócio: poderia transportar-me, mas teria de pagar 25 dólares (isso, se não fossemos parados no checkpoint; caso contrário, o valor subiria para 40 dólares).

Sem surpresas, à passagem pelo checkpoint, o jovem condutor ao serviço do Governo iraquiano fez questão de parar para cumprimentar cordialmente os militares, aumentando automaticamente para 40 dólares a tarifa do meu percurso.

Já à saída do aeroporto, com os bolsos mais vazios e a bagagem no carro de Safa, o meu intérprete lamentou o sucedido e admitiu que a tal taxa aplicada ao transporte de passageiros dentro do aeroporto é algo 'recente'.

Com um sorriso triste acrescentou: ‘São estas as novas regras no Iraque’.

@Marco Leitão Silva


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