A história do ensino secundário, em Cabo Verde, encontra-se viva nos cerca de mil sócios desta peculiar associação de alunos crescidos. Mas há mais. É a própria história da burguesia das ilhas. O nome das famílias mais influentes: Benrós, St ‘ Aubyn, Melo, Caldeira Marques, Cohen, Rocheteaux, Lopes da Silva, etc. ainda se fazem ouvir nas conversas. A mais elitista de todas as associações cabo-verdianas da diáspora.
A pose dos associados arrasta consigo uma etiqueta antiga falada ainda em português. A cultura, o bom gosto, o saber estar e o saber falar, herdeiros de uma educação exemplar e ímpar em todo o território do ultramar português. Na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde (AAAESCV) a tradição ainda é o que era.
As paredes da sala estão repletas de fotografias de um tempo de sonho e de aprendizagem com os mais insignes professores das ilhas. Ao alcance de um olhar. Baltasar Lopes é mais citado, mas também António Aurélio Gonçalves, Hugo Silva.Depois de concluir o liceu, a maior parte empregou-se na administração colonial portuguesa, tendo prestado serviço em Angola, Guiné e Moçambique. A escolaridade colocava-os num patamar muito superior aos autóctones. Alguns tornaram-se chefe de posto, adjuntos de administrador de concelho e deixaram esses territórios após a descolonização, radicando-se em Lisboa.
A ideia de uma tal associação não é mais do que uma tentativa de reunir nesta sala os colegas de então. Apesar
da designação oficial ter passado a abranger todo o ensino secundário, a sua génese está dos pupilos dos mestres do antigo Liceu Gil Eanes.
da designação oficial ter passado a abranger todo o ensino secundário, a sua génese está dos pupilos dos mestres do antigo Liceu Gil Eanes.Situada da zona nova do bairro de Carnide, a Associação foi fundada no final dos anos oitenta por entusiastas de uma boa prosa, numa tarde de sábado, acompanhada ao violão e cavaquinho. A ideia foi sempre a de promover a cultura cabo-verdiana, recuperando os saraus culturais de outros tempos e os bailes de Fim de Ano e Carnaval, e que se irá manter com esta nova direcção, liderada por Helena Benrós.
Para além dos almoços, jantares e passeios histórico-temáticos, promovidos pelas sucessivas direcções, as tardes de sábado passaram a incluir uma programação cada vez mais ambiciosa. Palestras com personalidades da cultura e do mundo académico tornaram-se comuns. É o caso do eurodeputado português Ribeiro e Castro, do general Loureiro dos Santos, do professor António St’ Aubyn, entre outros escritores e especialistas.
No último sábado foi a vez de Maria de Lurdes Chantre, a autora conhecida pelos seus livros de cozinha, num colóquio sobre a gastronomia cabo-verdiana.
O espaço da rua Manuela Porto, ali mesmo às portas do Centro Comercial Colombo, é hoje um animado espaço de convívio e cultura. Mas a cultura cabo-verdiana que ali se aprende é cada vez mais rara. Um saber de outros tempos. Uma ilha que sobrevive mantendo vivas tradições que se perderam com a emigração e com a mudança das mentalidades. Os últimos repositários de uma formação e de uma educação que a massificação e erosão social dos nossos dias apagaram das escolas de Cabo Verde.
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