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Pintura: Cabo-verdiano Manuel Figueira e a "pintura ao natural"

23 de Outubro de 2009, 14:52

"Pintar ao natural" foi a primeira lição que, pelos 20 anos de idade, o cabo-verdiano Manuel Figueira tomou a sério. Cinquenta anos depois, a sua prática oficinal continua a ser aquela - e todos os temas, todos os ambientes, lhe servem, sem reservas, sem preconceitos.

Lembra-se bem de quem veio a lição: de Abílio Duarte, então alguns anos mais velho do que ele e que, no liceu de Cabo Verde, estudante entre estudantes, desenvolveu trabalho político pelo PAIGC.

Manuel Figueira foi um dos estudantes que o militante do movimento independentista contactou. "Talvez por eu ter um ar sério", ironiza hoje, recordando o episódio à agência Lusa.

Para trás o tempo das europeias paisagens com árvores, neve e lua copiadas de álbuns de fotografias, dos actores das revistas de cinema que chegavam de Portugal, do Brasil, Manuel Figueira passou à realidade social cabo-verdiana, registando-a com os escassos recursos técnicos disponíveis então: a tinta-da-china, o lápis número dois, a aguarela, "porque guache ainda não havia".

A ele e a outros "com jeito" para o desenho e a pintura, Abílio Duarte dava uma lista de temas, desafiava-os a saírem para a rua, a desenharem a terra e as gentes, a irem a Praia dos Botes, Monte Sossego, Fonte Filipe, bairros então afastados do centro mas que o desenvolvimento urbano entretanto aglutinou. Depois, reuniam-se e discutiam o trabalho feito. Foi um tempo de aprendizagem.

Mais tarde, Lisboa e as Belas Artes surgiram no horizonte do promissor jovem artista por sugestão de Abílio Duarte e Baltazar Lopes da Silva. Os dois acabariam por vencer a oposição do pai de Figueira a que o filho saísse de Cabo Verde.

Para Lisboa, levou duas coisas: o jeito de "pintar ao natural" e uma carta de Baltazar Lopes da Silva para o poeta e pintor Mário Dionísio. Os dois homens eram amigos, tinham sido colegas em Letras, e ao próprio Figueira não era estranha - graças ainda e sempre a Abílio Duarte, que a tinha em fascículos - a obra teórica do autor de "A Paleta e o Mundo".

O encontro com Mário Dionísio, no entanto, só três anos mais tarde seria possível. Cristóvão dos Santos, a quem, por indicação de Lopes da Silva, a carta deveria ser primeiramente entregue, para posterior encaminhamento para o poeta e pintor, usou - entende hoje Figueira - "talvez de uma prudência exagerada" ao inviabilizar o contacto imediatamente após a chegada a Lisboa.

De Mário Dionísio, Manuel Figueira guarda ainda hoje bem viva a imagem de um homem acessível, sem afectação, compreensivo, sensível, que, como ele, lamentou o atraso de três anos com que se encontravam.

Nos desenhos que Figueira lhe mostrou, o poeta-pintor assinalou "alguma influência de Van Gogh". E disse "mais ou menos isto", evoca Figueira:"Pena que não tinha vindo no início. É que, agora, já tem uma certa experiência, já não dá, em termos práticos, para o orientar".

Quarenta e poucos volvidos, Figueira lembra o momento porventura com palavras muito próximas das que terá utilizado ao despedir-se do contista de "O dia cinzento": "Tive um grande prazer em o conhecer. Afinal, esteve um bocadinho ligado à minha vida. Tenho uma grande admiração".

Há dias, mal chegado a Lisboa para a inauguração, na Perve Galeria, de mais uma exposição da sua obra - uma "exposição antológica", como a define Carlos Cabral Nunes - Manuel Figueira não perdeu tempo. Dirigiu-se à Casa da Achada, o centro cultural construído em Lisboa em homenagem a Mário Dionísio, falou com a filha, recordou com ela aquele encontro. "Foi muito bom".

Em Lisboa, Manuel Figueira tirou o curso complementar da Escola Superior de Belas Artes. Frequentou a Casa dos Estudantes do império, o Lar dos Estudantes do Império, deu aulas numa escola e ficou a saber, pelo director, que "eles" - a Pide na língua cifrada dos fiéis do regime - estiveram lá a querer saber "coisas" sobre ele, cabo-verdiano "politizado" e, necessariamente, a precisar de ser "vigiado".

Regressou a Cabo Verde após o 25 de Abril. Levou na bagagem obra feita e parcialmente mostrada em Lisboa e um propósito: continuar a pintar, sempre, e participar, como artista, na construção e no desenvolvimento do novo país independente. Esse trabalho, essa luta, continuam.


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