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Telecomunicações/40 Anos: BAD foi o maior financiador dos projectos de modernização do país, diz Margarida Évora

16 de Julho de 2015

O Banco Africano de Desenvolvimento (BAD) foi o maior financiador dos projectos de modernização das telecomunicações de Cabo Verde, considerou a engenheira Margarida Évora, um dos primeiros quadros nacionais da área a chegar ao arquipélago independente.

“Foi o maior parceiro no desenvolvimento das telecomunicações no período pós-independência ao lado de países como França, Japão, Arábia Saudita, Áustria e Brasil”, frisou a engenheira no seu testemunho à Inforpress sobre os 40 anos da independência nacional, celebrados a 05 de Julho, cujo programa comemorativo se estende, entretanto, até Outubro com realizações descentralizadas no país e na diáspora.

Segundo Margarida Évora, o Governo cedo definiu o sector das telecomunicações como vital para o desenvolvimento do arquipélago. “Porém os fracos recursos financeiros do país recém- independente não podiam suportar os altos investimentos necessários à modernização do sector, pelo que o Governo procurou ajuda junto de várias fontes de financiamento, através da cooperação bilateral, recorrendo também a empréstimos de bancos internacionais”, indicou.

Entretanto, ocorrem-lhe ainda, por exemplo, no decurso dessas démarches, os financiamentos que Cabo Verde conseguiu obter com juros baixíssimos dos fundos FAD, Kuwait e ainda do Fundo OPEP que, segundo explicou, permitiram a substituição das centrais da Praia e Mindelo por novas centrais de maior capacidade e mais modernas, bem como a construção de novas redes de assinantes na Cidade da Praia e no Mindelo, mais tarde complementadas com ligações em fibra óptica.

“O Japão financiou uma nova estacão costeira no Mindelo, a França acabaria por financiar a Estação Terrena para comunicações via satélite da Várzea (Cidade da Praia) e a Áustria, numa fase posterior, viria a financiar a rede de cabos submarinos de fibra óptica inter-ilhas”, disse.

Viajando um pouco até aos primórdios da independência, Margarida Évora recorda, nesta entrevista à Inforpress, que no início, em Cabo Verde apenas se podia usufruir de serviços de telefonia fixa e telex e ainda de comunicações marítimas. Esses eram oferecidos pelo serviço autónomo dos Correios Telégrafos e Telefones (CTT) que também tinham a seu cargo a gestão e oferta dos serviços dos Correios e da Caixa Económica.

A telefonia fixa automática só existia na Praia e no Mindelo com respectivamente 400 e 900 assinantes. As duas centrais de comutação automáticas existentes eram do tipo Strowger e ligavam entre si os assinantes do Platô, na Cidade da Praia, com os do centro de Mindelo, através de duas pequenas redes de cabos de distribuição de assinantes subterrâneas e parcialmente aéreas, suportadas por postes de madeira banhados a creosoto.

“O acesso telefónico individual não existia em nenhum subúrbio dessas cidades e quando alguém necessitava de telefonar tinha de se dirigir a uma estação dos CTT onde existia telefone público”, recorda.

Sublinha entretanto, que apenas as estações da Praia e do Mindelo dispunham de postos de comutação automática (PABX) operados por telefonistas que atendiam os clientes desejando uma ligação telefónica para dentro ou fora do país.

“Nas ligações internacionais, os nossas telefonistas chamavam outros em Lisboa que, por sua vez, ou chamava outro do país de destino ou então terminava a ligação, caso o cliente chamado fosse um cliente pertencente à rede de distribuição de Lisboa”, salienta.

As estações dos CTT de Santa Catarina, Tarrafal, São Domingos, Ribeira Grande, Porto Novo, Ribeira Brava, São Filipe e Brava eram das poucas que tinham um PBX (manual). A esse PBX estava, em alguns casos, ligado um telefone manual no gabinete do Delegado do Governo.

A rede de transmissão nacional interilhas, prossegue a entrevistada da Inforpress, era, em alguns troços, relativamente moderna para a época. Eram os troços de Praia/São Vicente e Praia/Sal, do tipo difusão troposféricas, cujas instalações repetidoras se encontravam em Monte Chota (Santiago), Monte Verde (São Vicente) e Morro do Curral (Sal).

Algumas ligações em feixes Hertzianos (VHF) garantiam as comunicações telefónicas e telex com as outras ilhas.

Em 1975, Cabo Verde dispunha de duas ligações internacionais: uma em HF com Bissau cujos emissores e receptores se encontravam instalados na Achadinha Pires, na Cidade da Praia, e outra ligação com Lisboa, via o cabo submarino SAT1, cuja estação de amarração se encontrava na baía de Murdeira, na ilha do Sal.

A estação costeira de São Vicente facilitava as comunicações marítimas com barcos nacionais e estrangeiros que atravessavam o Atlântico, sendo que as ligações com os navios ainda se faziam com terminais do tipo morse ligados a emissores e receptores HF a válvulas, instalados na Ribeira de Vinha e Ribeira de Julião.

As ligações telefónicas e telex internacionais eram assegurados pela Companhia Portuguesa Radio Marconi (CPRM) sob um contrato de concessão assinado entre essa companhia e o governo português em 1966. Nessa altura, só o cabo Sat 1 estava em operação. Uma estação HF anteriormente operada também pela Companhia Radio Marconi, instalada na Achada Santo António já se encontrava desactivada.

Em 1977, o Estado de Cabo Verde iniciou negociações com a CPRM e o governo português com o objectivo de se cancelar a referida concessão. Logo nesse ano se acordou a propriedade exclusiva do Estado de Cabo Verde de todas as instalações de telecomunicações internacionais do país.

Entretanto, Margarida Évora não tem dúvidas de que a rede de telecomunicações implementada entre 1977 e 1996 possui uma “coluna dorsal” que vem permitindo uma periódica e constante actualização da mesma, ditada pelos avanços tecnológicos registados a nível mundial.

E considera, também, que os investimentos mais pesados e significativos para o sector foram feitos no período logo após a independência, entre 1977 e 1983, designadamente com a implementação da rede de distribuição de assinantes do país que levou à abertura de valas e o enterramento de cabos (inicialmente de cobre e posteriormente em fibra óptica), avaliados em 2005, em mais de 250 milhões de US dólares.

Em termos de recursos humanos, à época da independência, Margarida Évora precisa que, em 1975, havia apenas um engenheiro nacional formado em telecomunicações, Terêncio Alves, que foi o primeiro director nacional das Telecomunicações, que acumulava também as funções de director dos Serviços Autónomos dos CTT.

“Um engenheiro de bastante rigor e competência, que lançou as bases para o desenvolvimento do sector e conduziu as negociações com Portugal no processo do resgate da concessão da Companhia Portuguesa Rádio Marconi”, refere a entrevistada da Inforpress que faz questão ainda de sublinhar também a sua lembrança “com muito carinho” dos técnicos de apoio e pessoal administrativo dos CTT “que nos acompanharam nessa altura e sem os quais não daríamos conta do recado”…

Na lista que elaborou socorrendo-se da memória, apontou nomes como Carlos Brito (Tchalé), em São Vicente, Hilário Brito, Eduardo Dantas dos Reis (Dadá), Pedro Alexandrino Tavares (Pedro Coedjinha), na Cidade da Praia, entre outros, técnicos que “não tinham horas para entrar nem sair do trabalho, estavam sempre presentes e quando havia uma simples avaria ou um corte nas comunicações eram eles que lá estavam para resolver o problema”.

"A partir de Outubro de 1976 passamos a ser dois engenheiros no sector das telecomunicações em Cabo Verde", acrescentou.

Inforpress



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