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Marcelino Santos: Radialista há 43 anos telegrafou para o mundo informação sobre a independência de Cabo Verde

09 de Julho de 2015

Marcelino Santos é um radialista desde os 17 anos, ainda antes da independência, tendo sido o teletipista que, a 05 de Julho de 1975, enviou telegramas para o mundo inteiro a dizer que Cabo Verde era independente.

“Fui o primeiro teletipista do Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC) e a mensagem que transmitimos foi para a Guiné-Bissau e dali para o mundo”, rememora, realçando que, depois disso, passou a ser teletipista da Presidência da República e quem geria todos os telegramas de e para esse órgão, até ter ganho uma bolsa de estudo para a Argentina.

Após dois anos de especialidade nesse país, fixou-se no Sal, onde montou a rádio local, mas recorda ter sido perseguido com o argumento de que estava a alienar o povo com música sentimental.

"Tive que fugir e regressei à Argentina em 1978, onde continuei interessado nas informações de Cabo Verde e na actividade radiofónica, fazendo informação internamente nos clubes que tinham cabo-verdianos”, conta.

Em 1990, arranca com os primeiros programas de rádio nesse país, pagando o tempo de antena prestando serviços na área de reparação das antenas da estação, até que, em 1994, funda uma associação de cabo-verdianos na Argentina.

Segundo este técnico em electrónica geral e telecomunicações de aeronáutica civil internacional, residente em Buenos Aires, a partir daí, desenvolveu muitas iniciativas, sendo o de maior peso a Rádio Rabil Internacional, graças à qual continua a se comunicar com cabo-verdianos em todo o mundo, via Internet.

“O que fizemos foi alargar a audição que se destina à comunidade cabo-verdiana na Argentina para chegar a outros cabo-verdianos espalhados pelo mundo. À medida que fomos sentindo que havia necessidades comunicativas, fomos colmatando-as”, disse.

Segundo o ‘velho’ radialista, que também é correspondente do programa Nação Global, da Rádio de Cabo Verde (RCV), a grande característica da sua programação é a interacção a todo o tempo, sem censura prévia de espécie alguma, porque acredita que as pessoas são responsáveis.

Todas as quartas-feiras, das 14:00 às 16:00 de Cabo Verde, a Rádio Rabil Internacional emite em crioulo, havendo mais uma hora em espanhol, explica, ao informar que ela pode ser ouvida simultaneamente no website da estação ou a qualquer momento.

Data de 1969 os primeiros passos de Marcelino Santos na rádio, ainda na Cidade da Praia, a partir de onde estudou electrónica por correspondência, nota, para realçar que a primeira experiência fê-la, no mesmo ano, mas em São Vicente, onde armou um aparelho FM com o qual difundia durante algumas horas.

De regresso à Boa Vista, Marcelino Santos despontou-se como promotor da difusão radiofónica, estendendo uma linha telefónica numa extensão de sete quilómetros, de Rabil à vila de Sal-Rei, com dois pares de cabo, perfazendo ao todo 28 quilómetros, não fosse uma cabra ou um burro cortar um par deles, recorda.

“Tínhamos uma mesa de som com um comutador, com o apoio do qual éramos ouvidos nas duas localidades a partir de um alto-falante que tínhamos na vila”, depois do que passou a ser conhecido por essa ‘ousadia’, afirma.

Depois disso, foi ‘recrutado’ pela Rádio Clube, na Cidade da Praia, onde aprendeu outras formas de fazer rádio e foi técnico de som até 1974. Seguiu-se o serviço militar, em Morro Branco, em São Vicente, onde montou a ‘Rádio Catchupa’ para transmitir a Rádio Libertação (estação emissora do PAIGC, durante a luta armada), que ouvia desde quando residia na capital.

“Não jurei a bandeira porque o partido assim nos mandou, fomos perseguidos e salvos na Ribeira Bote”, mais tarde conhecida por uma espécie de zona libertada, antes de regressar à Praia, onde não conseguiu reingressar na rádio, “porque era um rebelde de Morro Branco”.

Esta é a razão por que criou a Rádio Tchada, a primeira a emitir em crioulo de Santiago, até ter-lhe sido tomada, referiu, para acrescentar que, depois disso, foi para o Tarrafal de Santiago, onde instalou uma rádio de ondas curtas que era ouvida no interior da ilha, no Maio e na Brava.

Nas décadas seguintes, muitos foram os projectos de rádio que Marcelino Santos desenvolveu um pouco por todo o país, sem ter conseguido um alvará que legalizasse as suas emissoras, razão por que optou por fazer rádio a partir da Europa e depois da Argentina, sempre em parceria com a Rádio Nacional em Cabo Verde.

Lamenta, contudo, que, ainda hoje, não tenha conseguido um alvará para a sua transmissão para Cabo Verde, onde todos não podem ter um computador que permita ouvir a Rádio Rabil Internacional via Internet, pelo que se torna necessário emitir sinais que podem ser captados por qualquer aparelho de rádio.

Inforpress



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