Página gerada às 22:39h, segunda-feira 23 de Abril

 

40 anos: "Balanço global é positivo, mas muito mais poderia ter sido feito", diz Provedor de Justiça

06 de Julho de 2015

O provedor de justiça faz um balanço positivo dos 40 anos de independência, mas considera que muito mais poderia ser feito, por exemplo, para a introdução do crioulo no ensino ou maior desenvolvimento das actividades ligadas ao mar.

Ao evocar o 40º aniversário da independência nacional, assinalado a 05 de Julho, António Espírito Santo Fonseca afirmou que, num balanço global, dirá que os cabo-verdianos conseguiram construir um Estado que se afirmou “dentro do possível”, além das condições criadas para decidirem o seu próprio destino e serem decisivos nas soluções que importarão ao país.

“Fomos aprendizes, como todos os outros, e haverá pontos positivos e pontos menos positivos, mas o balanço global é positivo”, admitiu o antigo presidente do Parlamento, para quem os anos da independência têm como maiores marcos o fim da dominação colonial, em 1975, a instauração da democracia pluripartidária, em 1990, e agora a problemática das desigualdades sociais que está a chamar a atenção dos cidadãos.

Como momentos mais positivos, o provedor de justiça destacou a afirmação de Cabo Verde como país independente e a capacidade de se ter construído um Estado a partir de condições materiais extremamente difíceis e de se ter resolvido outros problemas como a instauração da democracia de forma pacífica.

Considerou também “muito importante” o país não se ter deixado esmagar pela revolução tecnológica, sobretudo no domínio das tecnologias de comunicação e informação, que chegaram ainda nos meados da década de 80 do século passado e continuam até hoje.

Numa alusão aos seus sonhos e expectativas sobre que país independente seria hoje Cabo Verde, António Espírito Santo Fonseca admitiu que muita coisa poderia ter sido feita de forma diferente.

“Por exemplo, gostaria que a língua materna já tivesse sido introduzida no ensino. É um problema de direitos”, advogou o provedor de justiça, para lembrar que a UNESCO defende o direito das crianças serem alfabetizadas e aprenderem as primeiras noções de matemática numa das línguas dos seus pais.

Tal problema, segundo António Espírito Santo Fonseca, entronca, em parte, com a questão das desigualdades sociais, na medida em que há uma parte dos cabo-verdianos com acesso mais fácil ao conhecimento do português em casa e por outros meios, tendo parcialmente maiores possibilidades de sucesso no ensino.

Após quatro décadas de independência, esperava que o país tivesse também uma capacidade produtiva “um pouco maior” e um mercado nacional unificado, bem como um maior desenvolvimento das actividades ligadas ao mar.

“São expectativas que as pessoas têm, muitas vezes, à revelia da avaliação dos recursos, das possibilidades e dos meios para as levar avante”, referiu, salientando que Cabo Verde ficou aquém do que esperava, embora se pudesse, a partir de uma determinada altura, concentrar nessas áreas.

Admitiu, contudo, que uma das coisas que faltava era o “conhecimento de nós próprios” no sentido colectivo, o que, a seu ver, significa: “sabermos a nossa história, conhecermos a geografia e a geologia do país, conhecermos a fundo o que temos e o que não temos nos nossos mares”.

Como não existiam recursos, principalmente humanos qualificados para isso na altura, reconheceu como factor de esperança o aparecimento de universidades em Cabo Verde que poderá contribuir para uma alteração qualitativa desse ponto de vista.

“O que importa é virmos a ser capazes de ter um projecto minimamente consensual, um projecto estratégico capaz de permitir a Cabo Verde desenvolver-se, pelo menos, nessas áreas que são da minha expectativa”, sublinhou.

Instado a avaliar o percurso político do país, António Espírito Santo Fonseca reconheceu que existem coisas menos bem-feitas, por ter, de alguma forma, faltado capacidade de deter essas acções ou de impor a sua realização, mas garantiu que “as questões centrais foram resolvidas, as pedras basilares foram postas”.

No que se refere ao desempenho dos actores políticos nestes anos, é de opinião que as decisões, sobretudo as consideradas erradas, não foram tomadas sem consultar ninguém ou sem oposição de outrem e apelou às pessoas a compreenderem e a assumirem a política como uma não profissão, porque se trata de militar a favor de causas e para o bem-comum.

Caso contrário, correm o risco de aceitar tudo o que lhes aparece ou de começar a dizer “sim senhor” a tudo, a chefes e subchefes de partidos e não só, rematou, convicto de que há sempre mínimos aceitáveis e inaceitáveis.

Inforpress



Comentários

Critério de publicação de comentários